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Desmatamento acima de 50% aumenta incidência de malária em Cruzeiro do Sul, aponta estudo

Uma pesquisa inovadora conduzida em Cruzeiro do Sul, no Acre, revelou uma forte correlação entre o desmatamento e o aumento da incidência de malária. O estudo, publicado na revista científica Acta Tropica, identificou que áreas com mais de 50% de desmatamento apresentam um risco significativamente maior de ocorrência da doença.
A pesquisa foi realizada em 40 pontos distintos de Cruzeiro do Sul, um município que figura entre os principais focos de malária no Brasil. Os pesquisadores analisaram a relação entre a cobertura florestal, a presença do mosquito Anopheles (transmissor da malária) e a incidência da doença em humanos.
“Nossos resultados mostram que o desmatamento descontrolado cria um ambiente propício para a proliferação do mosquito Anopheles e, consequentemente, aumenta o risco de transmissão da malária”, explica a Dra. Maria Fernanda Silva, líder da pesquisa e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP). “A derrubada da floresta aproxima as comunidades humanas das áreas de mata, facilitando o contato com o vetor da doença.”
Principais descobertas:
-Relação Unimodal: O estudo revelou uma relação unimodal entre o risco de exposição à malária e a cobertura florestal. Isso significa que o risco é maior em áreas com desmatamento entre 50% e 70%, diminuindo em áreas totalmente desmatadas.
-Restauração da Cobertura Vegetal: A pesquisa também demonstrou que a restauração da cobertura vegetal para níveis acima de 70% tende a reduzir a incidência da malária.
-Tempo de Colonização: Regiões colonizadas há mais tempo apresentaram maior propensão ao aumento do risco de infecção humana.
-Vegetação Fragmentada: Áreas com vegetação fragmentada também apresentam maior risco, pois facilitam o contato entre os mosquitos que vivem na floresta e os humanos.
Os resultados do estudo reforçam a importância da conservação da floresta amazônica para a saúde pública. O desmatamento, somado aos efeitos das mudanças climáticas, cria condições propícias para a disseminação de doenças transmitidas por mosquitos, como a malária, a dengue e a zika.
“É fundamental implementar políticas públicas que incentivem a conservação da floresta e promovam o desenvolvimento sustentável na região amazônica”, afirma o Dr. Gabriel Laporta, biólogo e professor do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC (FMABC). “Além disso, é necessário fortalecer a vigilância epidemiológica e o controle vetorial para prevenir a ocorrência de surtos de malária.”
A pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e contou com a participação de pesquisadores de diversas instituições brasileiras. Para a análise, foi realizado um experimento em 40 áreas localizadas em uma fronteira de desmatamento no Acre, representando diferentes níveis de cobertura florestal e degradação.
