Tensão diplomática: Brasil volta ao radar de tarifas de Trump após investigação e revogação de visto

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Tensão diplomática: Brasil volta ao radar de tarifas de Trump após investigação e revogação de visto

O Brasil voltou a entrar no foco de novas tarifas do governo de Donald Trump nesta semana, em um cenário de crescente tensão diplomática entre Brasília e Washington. Além de ser um dos 59 países alvo de uma investigação comercial que pode resultar em impostos sobre exportações ao mercado norte-americano, a relação foi abalada pela decisão do Itamaraty de revogar o visto de Darren Beattie, assessor sênior do Departamento de Estado dos EUA.

Beattie teve o visto cancelado sob a justificativa de “omissão e falseamento de informações relevantes quanto ao motivo da visita”. O diplomata pretendia visitar Jair Bolsonaro (PL) na prisão e se reunir com lideranças da direita brasileira. Para analistas, a medida soma-se à tensão gerada pela investigação aberta pela Representação Comercial dos EUA (USTR) sobre práticas consideradas desleais no comércio internacional.

A ação da USTR, aberta na última quinta-feira (12/3), baseia-se no Artigo 301 da Lei de Comércio de 1974 e tem como alvo a suspeita de trabalho forçado e análogo à escravidão nos países investigados. Os EUA justificam que o processo busca avaliar se governos estrangeiros falham em impedir a circulação ou importação de produtos fabricados com essa mão de obra, o que poderia gerar vantagem competitiva injusta.

A medida é vista por especialistas como uma estratégia para contornar a decisão da Suprema Corte americana que derrubou os efeitos do “tarifaço” anunciado por Trump em 2025. Na ocasião, o presidente usou a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) para taxar a maioria dos países, mas a medida foi suspensa judicialmente.

“Desde que as tarifas de 40% caíram, eles [governo Trump] ficaram entendendo o que poderiam fazer para retomar as tarifas. Acredito que todos os países vão ser penalizados de alguma maneira”, declarou ao Metrópoles o embaixador Rubens Barbosa, ex-representante do Brasil em Londres e Washington. Para ele, as tarifas devem ser restabelecidas, ainda que em valores diferentes dos de 2025.

João Alfredo Nyegray, professor de Negócios Internacionais da PUC-PR, avalia que a investigação sinaliza uma redefinição do conceito de concorrência desleal por parte dos EUA, que passam a incluir falhas regulatórias em cadeias produtivas globais.

“O Brasil não deve interpretar sua inclusão como um caso isolado nem como um julgamento final sobre sua conduta, mas como parte de uma estratégia mais ampla de Washington para reorganizar o comércio internacional segundo parâmetros regulatórios definidos unilateralmente pelos EUA”, afirmou o docente.

Nyegray alerta que a abertura do processo já gera efeitos, mesmo antes de qualquer decisão final. “A simples abertura da investigação já eleva a incerteza para exportadores, investidores e cadeias integradas ao mercado dos EUA”, pontua. Além disso, a medida pode reforçar a tendência de condicionar o acesso a mercados a fatores como direitos humanos, política industrial e geoeconomia.

Na dimensão diplomática, o professor destaca que o Brasil é obrigado a responder tecnicamente a critérios estabelecidos em Washington, com risco de que o combate ao trabalho forçado — um tema legítimo — seja usado como instrumento de pressão comercial.

Já o embaixador Rubens Barbosa adota uma postura cética. Na sua visão, as respostas do Brasil dificilmente serão suficientes para evitar novas tarifas, e a investigação pode servir de base para o retorno do discurso protecionista dos EUA, sem uma preocupação efetiva com violações de direitos humanos.

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