Um pastor queniano que pregava o jejum até a morte como caminho para encontrar Jesus foi condenado, segunda-feira (19), pelo assassinato de 191 pessoas – 190 crianças e um adulto. Paul Mackenzie, líder da igreja Good News International Church, comandava um sistema que usava ensinamentos religiosos para levar seus seguidores à morte, concluiu a Justiça do Quênia.
O caso ganhou repercussão internacional em 2023, quando mais de 400 corpos foram exumados de covas rasas no Chakama Ranch, uma propriedade de 320 hectares no condado costeiro de Kilifi. No local, seguidores do pastor viviam em cabanas de barro, isolados das comunidades vizinhas e longe da fiscalização das autoridades.
Crianças eram o primeiro alvo do jejum forçado
Segundo as conclusões do tribunal, a ordem para jejuar até a morte começou pelas crianças. Guardas eram posicionados para impedir que elas fugissem e agrediam aquelas que tentavam escapar ou conseguir comida.
Mackenzie também orientava seus seguidores a rejeitar a educação e os cuidados médicos. Ao anunciar a decisão, a juíza Diana Kavedza afirmou que o tratamento médico era apresentado pelo líder religioso como “um instrumento de Satanás”.
A condenação é resultado de um julgamento iniciado em 2023. Mackenzie foi preso e acusado de homicídio junto com sua mulher e dezenas de seguidores. Alguns deles se tornaram testemunhas de acusação durante o processo.
O pastor negou as acusações e afirmou que não obrigou seus seguidores a jejuar. A Justiça marcou para 30 de outubro uma audiência para discutir a pena, com a sentença prevista para 6 de novembro.
Família de vítimas espera que caso sirva de alerta
Para William Ponda Ngala, que perdeu a mãe, o irmão mais velho e dois sobrinhos na tragédia, a condenação representa um alívio e a esperança de que o caso impeça outros líderes religiosos de explorar seus seguidores.
“Finalmente, como família, podemos respirar aliviados, sabendo que Mackenzie e todos aqueles que causaram as mortes dos meus familiares foram condenados”, afirmou.
Disputa judicial sobre o número de acusações
O processo também foi marcado por uma disputa sobre a quantidade de acusações de homicídio que poderiam ser apresentadas contra Mackenzie e seus corréus.
Em maio de 2024, o Tribunal Superior determinou que o Ministério Público limitasse a acusação a, no máximo, 12 homicídios. Em abril de 2025, porém, o Tribunal de Apelação autorizou o prosseguimento de 191 acusações. Os magistrados entenderam que a legislação não estabelece um limite para o número de acusações de homicídio que podem ser apresentadas contra um réu.












