O assassinato da médica Elyne de Assis Nogueira, em 2 de novembro de 2026, em Brasiléia, não é apenas mais um registro de violência no noticiário. É o símbolo doloroso de um problema que precisa ser encarado com urgência: mulheres que buscam proteção e, ainda assim, têm suas vidas ceifadas. A pergunta que fica não é apenas sobre quem cometeu o crime, mas sobre por que os mecanismos que deveriam protegê-la falharam. Elyne havia denunciado, havia conseguido medida protetiva — e mesmo assim não foi salva. Essa realidade exige mais do que comoção; exige revisão profunda de como o Estado acolhe e protege quem está ameaçada.
Dados da Pesquisa de Vitimização realizada em 2026 na cidade de Rio Branco, com 800 moradores, trazem números que ajudam a entender a dimensão do problema. Entre as mulheres entrevistadas, quase uma em cada cinco relatou ter sofrido violência doméstica ao longo da vida. E o dado mais alarmante: apenas cerca de 30% das vítimas registraram ocorrência policial. Isso significa que a maior parte da violência acontece longe dos olhos das instituições, em silêncio, sem que ninguém intervenha antes que seja tarde demais. Em oito de cada dez casos registrados, o agressor era um parceiro ou ex-parceiro — o que revela que o perigo muitas vezes está onde deveria haver acolhimento.
A violência fatal raramente acontece de um momento para outro. Ela costuma chegar disfarçada em ameaças, controle, humilhações e isolamento — sinais que, quando ignorados, se tornam degraus rumo ao desfecho irreversível. A pesquisa mostrou que esses sinais muitas vezes não são reconhecidos como violência, sendo tratados como “problema de casal” ou “briga doméstica”. Cada vez que alguém diz “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, está fechando os olhos para um risco que pode ser fatal.
Uma medida protetiva não pode ser apenas um papel assinado por um juiz. Ela precisa ser monitorada, fiscalizada e sentida como proteção real pela mulher que corre risco. Isso exige integração verdadeira entre todas as instituições envolvidas — polícia, Judiciário, Ministério Público, saúde, assistência social — com protocolos claros de avaliação de risco e acompanhamento contínuo. A prevenção não pode depender apenas da coragem da vítima de ligar para a polícia; é obrigação do Estado agir de forma proativa quando recebe um alerta de perigo.
Não basta punir depois que a tragédia acontece. O custo social e humano de uma vida perdida não tem preço. Campanhas de conscientização são importantes, mas não substituem resposta rápida e eficaz. O endurecimento de leis não impede crimes se não houver olhar atento para quem já pediu ajuda. A verdadeira medida de eficácia de uma política pública não está no número de condenações, mas no número de vidas preservadas.
O conhecimento científico produzido por instituições como a Universidade Federal do Acre precisa orientar ações concretas. Os dados de subnotificação, os padrões de violência e os motivos que afastam as mulheres das delegacias são ferramentas preciosas para construir políticas públicas que cheguem até elas antes que seja tarde. E isso precisa chegar também aos municípios do interior, onde a rede de proteção é ainda mais escassa e a vulnerabilidade, muitas vezes, maior.
Elyne não pode ser reduzida a uma estatística. Sua morte precisa ser o ponto de virada para que, no Acre, quando uma mulher disser que está ameaçada, o Estado não apenas ouça — mas aja com urgência, com estrutura e com a seriedade que uma vida humana merece. Porque proteger uma mulher ameaçada não é favor; é dever do Estado. E cumprir esse dever antes que o pior aconteça é a única forma honrada de honrar a memória de quem partiu.
Ermício Sena, Marcos Montysuma e Daniel Sant’Ana — pesquisadores do Grupo de Estudos em Violência e Conflitualidades (GEVIC/UFAC)











