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Brasil tem 2 cidades citadas pela ONU entre as mais vulneráveis à elevação do nível do mar; veja quais

Entre as 31 cidades listadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) como mais vulneráveis aos riscos da elevação do nível do mar, há duas que ficam no Brasil. Ambas são no Estado do Rio de Janeiro: a capital e Atafona, distrito de São João da Barra. O Terra conversou com especialistas para entender os impactos reais para as cidades e os habitantes.
O relatório que faz o alerta se chama Surging Seas in a warming world: The latest science on present-day impacts and future projections of sea-level rise (em tradução livre: ‘Mares em elevação num mundo em aquecimento: a ciência mais recente sobre os impactos atuais e as projeções futuras da subida do nível do mar’), e completa um ano de divulgação neste mês.
O documento explica que a taxa de aumento do nível do mar mais do que dobrou nas últimas décadas. A projeção é que até 2050 essa elevação possa chegar a 21 cm – até o momento, nas duas cidades citadas do Rio, a elevação já alcançou 13 cm. E esse “transbordar do oceano” se dá por conta do aquecimento global, pois a água se expande quando o ambiente fica mais quente, derrete geleiras e, assim, passa a ocupar mais espaço.
Poucos centímetros, volume ‘colossal’
Esse aumento do nível do mar, relacionado ao aquecimento global, se dá de forma antropogênica, ou seja, é provocado pelo homem, como explica o geógrafo marinho Eduardo Bulhões, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Como aponta, esse cenário se potencializa sobretudo por conta do aumento nas emissões de gases de efeito estufa.
Por mais que o aumento do nível do mar, em si, seja da ordem de poucos centímetros, os impactos são diversos. “Mesmo que essa elevação seja de poucos centímetros, quando se multiplica a elevação média do nível do mar pela área do oceano, estamos falando de um volume colossal de água”, alerta o especialista.
Ele conta que toda essa água está em constante movimentação, interagindo com ventos cada vez mais fortes, gerando ondas maiores e tempestades no oceano – como as ressacas do mar – cada vez mais severas.
“Isso é grave para áreas já vulneráveis à erosão costeira como o exemplo de Atafona, que tem sua vulnerabilidade associada a outros motivos, que, agora, se somam aos impactos cada vez mais evidentes das mudanças climáticas”, complementa o especialista, que acrescenta os transtornos para a drenagem urbana em grandes cidades litorâneas como o Rio de Janeiro.
Segundo Bulhões, toda a água da cidade precisa escoar para o mar e, com a elevação de seu nível, esse escoamento é dificultado. E, com concentrações de populações em áreas de baixada, isso aumenta o risco de inundações, por exemplo.
Elevação do mar obriga deslocamento
Ao Terra, Taciana Stec, bióloga e especialista em políticas climáticas do Instituto Talanoa, reforçou que o impacto do aumento do nível do mar também resulta no deslocamento de populações. Segundo ela, a erosão costeira causa perda de infraestrutura nas cidade e, considerando comunidades tradicionais, tudo isso impacta negativamente o turismo e os recursos pesqueiros, com efeitos profundos.
Por mais que o estudo da ONU cite apenas duas cidades brasileiras como as mais vulneráveis, o Brasil conta com 279 municípios costeiros distribuídos em 17 Estados, fazendo com que o litoral brasileiro seja considerado o 15º maior do mundo. Essas outras regiões não estão isentas do impacto da elevação do nível do mar – e, conforme avalia a especialista, a maioria das cidades ainda não está tratando a questão com a urgência necessária.
Para ela, as cidades precisam se preparar e desenvolver resiliência para o aumento do nível do mar por meio de ações de adaptação climática, específicas para cada região. “Os impactos são muito locais e as políticas precisam ser desenhadas considerando as particularidades do território afetado e a participação social. Sem isso não há eficiência na adaptação à mudança do clima”, frisa.
De maneira geral, como forma de adaptação ao cenário, ela aponta três soluções que municípios costeiros precisam levar em conta:
Preservação e recomposição da restinga e dos manguezais, ecossistemas que funcionam como barreiras naturais, tanto em situações de aumento permanente do nível do mar, quanto em situações pontuais de ressacas e outros eventos extremos;
Processos de licenciamento ambiental mais criteriosos para os empreendimentos em áreas costeiras. Precisam estar alinhados com critérios de adaptação e salvaguarda do modo de vida das populações tradicionais, que contribuem para a preservação dos ecossistemas e recursos costeiros;
Toda e qualquer infraestrutura precisa ser planejada para resiliência. Isso se faz usando a melhor ciência disponível, que já é capaz de apontar quais são as áreas mais vulneráveis.
O que as cidades têm feito
O Terra entrou em contato com as prefeituras do Rio de Janeiro e de São João da Barra em busca de mais informações sobre o que foi feito e o que segue sendo realizado desde que o alerta da ONU foi publicado, citando as cidades. A reportagem não obteve retorno até a publicação desta reportagem, mas o espaço segue aberto e será atualizado em caso de resposta.
Aumento do nível do mar no mundo
Confira quais são as cidades apontadas como as mais vulneráveis pelo aumento do nível do mar, considerando localidades dos países do G20, segundo relatório da ONU:
Nova Orleans (EUA) – projeção média de 41 cm de elevação do nível do mar e máxima de 46 cm até 2050;
Atlantic City (EUA) – projeção média de 28 cm e máxima de 34 cm;
Osaka (Japão) – projeção média de 27 cm e máxima de 32 cm;
Boston (EUA) – projeção média de 25 cm e máxima de 32 cm;
Xangai (China) – projeção média de 24 cm e máxima de 29 cm;
Miami (EUA) – projeção média de 22 cm e máxima de 27 cm;
Londres (Inglaterra) – projeção média de 19 cm e máxima de 26 cm;
Nova Iorque (EUA) – projeção média de 20 cm e máxima de 24 cm;
Cidade do Cabo (África do Sul) – projeção média de 19 cm e máxima de 23 cm;
Hamburgo (Alemanha) – projeção média de 16 cm e máxima de 26 cm;
Calcutá (Índia) – projeção média de 18 cm e máxima de 23 cm;
Copenhague (Dinamarca) – projeção média de 17 cm e máxima de 23 cm;
Istambul (Turquia) – projeção média de 16 cm e máxima de 23 cm;
Atafona (Brasil) – projeção média de 16 cm e máxima de 21 cm;
Rio de Janeiro (Brasil) – projeção média de 16 cm e máxima de 21 cm;
Marselha (França) – projeção média de 15 cm e máxima de 21 cm;
Brisbane (Austrália) – projeção média de 15 cm e máxima de 21 cm;
Durban (África do Sul) – projeção média de 15 cm e máxima de 20 cm;
Incheon (República da Coreia) – projeção média de 15 cm e máxima de 20 cm;
Perth (Austrália) – projeção média de 16 cm e máxima de 19 cm;
Sydney (Austrália) – projeção média de 15 cm e máxima de 20 cm;
Buenos Aires (Argentina) – projeção média de 15 cm e máxima de 19 cm;
Nice (França) – projeção média de 14 cm e máxima de 19 cm;
Guangzhou (China) – projeção média de 13 cm e máxima de 19 cm;
Quebec (China) – projeção média de 14 cm e máxima de 17 cm;
Long Beach (EUA) – projeção média de 13 cm e máxima de 17 cm;
São Francisco (EUA) – projeção média de 13 cm e máxima de 17 cm;
Tóquio (Japão) – projeção média de 12 cm e máxima de 18 cm;
Melbourne (Austrália) – projeção média de 13 cm e máxima de 17 cm;
Vancouver (Canadá) – projeção média de 8 cm e máxima de 12 cm;
Richmond (Canadá) – projeção média de 8 cm e máxima de 12 cm.
