O aumento dos furtos de cabos de energia tem mergulhado bairros do Distrito Federal em apagões recorrentes, prejuízos financeiros e uma rotina marcada pelo medo e pela incerteza. Além dos danos materiais, a prática compromete serviços essenciais e afeta diretamente a sensação de segurança da população.
Em casos extremos, até um hospital teve sua rotina impactada e bebês internados ficaram em risco após o fornecimento de luz ser interrompido (leia mais abaixo).
Bairros inteiros de Brasília têm enfrentado apagões frequentes, com ruas às escuras, postes apagados e moradores evitando circular à noite. Em relatos ao Metrópoles, moradores do Plano Piloto afirmam que o problema vem se agravando nos últimos meses.
A servidora pública Fabiane Freitas, moradora da 703 Sul há 15 anos, conta que viveu uma sequência de transtornos no fim de 2025 em razão dos furtos de cabos.
Segundo ela, na última semana de dezembro, a energia elétrica da quadra começou a oscilar repetidamente até que houve uma pane geral. No dia seguinte, o cenário dentro de casa era de caos, prejuízo e preocupação com novos danos provocados pela instabilidade no fornecimento.
“Minha filha foi ligar o micro-ondas e fez um barulho, ‘pof, pof’, e começou a soltar a fumaça. Eu tive vários aparelhos elétricos queimados, o portão da minha casa queimou o motor e eu tive pane também no ar-condicionado”, relatou.
Fabiane afirma que, quando a energia foi restabelecida, as oscilações continuaram e vizinhos passaram a reclamar dos mesmos problemas. Pouco depois, uma residência de uma quadra próxima começou a pegar fogo, aumentando o clima de tensão entre os moradores da região.
“Em relação à minha casa, eu ainda tive sorte porque eu acionei o seguro residencial, então o seguro vai me reparar, mas eu tive vários prejuízos”, disse.
De acordo com a moradora, a quadra ficou cerca de seis horas sem energia. “A gente viu que tinham sido furtados cabos, não é a primeira vez, já furtaram cabo aqui na porta da minha casa. Aqui na 703, por conta da proximidade da nossa quadra ao centro pop, a gente atrai pessoas que precisam do centro pop e as pessoas infiltradas”, explicou.
Em outubro de 2025, Fabiane conseguiu registrar em vídeo o momento em que um homem se aproxima da caixa de energia, abre o compartimento e sai carregando fios, com a ajuda de outro suspeito.
Veja:
Outro morador da Asa Sul relatou que, diante da recorrência dos crimes, os próprios moradores precisaram tomar medidas por conta própria.
“Tivemos dois furtos de cabos de energia de blocos na rua. Na segunda vez, conseguimos identificar as pessoas, cercamos o carro onde os cabos eram colocados e a polícia conseguiu prender os criminosos”, disse.
Como tentativa de conter os furtos, moradores passaram a soldar as tampas das caixas de energia, mas com a dificuldade e custo alto não conseguiram aplicar isso em todas. “Cotizamos e também tentamos fechar os acessos aos cabos e fios dos postes de iluminação pública”, contou.
Prática recorrente
Segundo a presidente do Conselho Comunitário da Asa Sul, Patrícia Carvalho, o furto de cabos tem sido recorrente e provoca impacto imediato na vida de quem vive na região.
“Quando ocorre essa situação, a região fica com trechos inteiros, sem iluminação por dias, às vezes semanas ou até meses. Isso afeta diretamente a população na sensação de segurança dos moradores e o funcionamento do comércio”, destacou.
Ela afirma que a insegurança passou a ditar a própria rotina. “Eu evito circular à noite, fico mais apreensiva. Um espaço escuro transmite sinais de abandono. E abandono atrai a criminalidade”, disse.
“Não é só sensação, é uma realidade vivida no dia a dia. Não só para mim, mas para todos, quem mora na região, quem trabalha, quem precisa ir para uma parada de ônibus, quem estuda. Muito complicada a situação”.
Como presidente do conselho comunitário, Patrícia diz que a preocupação é constante: “A iluminação pública, ela está diretamente ligada à prevenção de crimes e a sensação de segurança. E quando ela falha, o impacto é coletivo”.
Dados da Neoenergia Brasília evidenciam a dimensão do problema. Em 2025, foram registradas 1.108 ocorrências entre furtos efetivos e tentativas — uma média superior a três casos por dia no Distrito Federal. Ao longo do ano, mais de 100 mil clientes tiveram o fornecimento de energia afetado.
O Plano Piloto, incluindo Asa Norte e Asa Sul, concentrou 602 ocorrências em 2025, mantendo-se como a região mais crítica. Águas Claras aparece em seguida, com 120 furtos e tentativas.
Relembre alguns casos
- Em outubro de 2025, a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) deflagrou a Operação Powercut II, que desarticulou uma organização criminosa especializada em furtos e lavagem de dinheiro envolvendo cabos de energia, telefonia e internet;
- Três homens foram presos, na madrugada do dia 12 de novembro, enquanto tentavam furtar cabos de energia dentro de um bueiro. O crime ocorreu na 710/711 da Asa Norte (DF);
- Em janeiro de 2026, a PCDF realizou uma operação para furtos de cabos em São Sebastião, usados para mineração de criptomoedas;
- Em outro caso, ladrões fingiam ser técnicos de telefonia para furtar cabos de energia e transmissão de dados. O prejuízo estimado ultrapassa R$ 1 milhão apenas em 2025.
Impacto em hospitais e serviços essenciais
No caso dos hospitais, o problema é ainda mais sério. Em março do ano passado, pacientes que estavam internados no Hospital Regional do Paranoá apresentaram piora no estado clínico, incluindo bebês, após uma falha de energia provocada por furto de cabos na região.
Segundo a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF), o impacto imediato inclui instabilidade em sistemas de informação, dificuldade de acesso a prontuários eletrônicos, interrupção de serviços não essenciais e sobrecarga da infraestrutura.
Cada hospital da rede pública conta com sistemas de backup, como geradores e no-breaks, dimensionados para manter áreas críticas em funcionamento, como Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), centros cirúrgicos e alas de emergência.
“Os geradores entram em operação em segundos após a queda de tensão e, com um plano de contingência para situações dessa natureza, é possível a imediata reorganização dos fluxos assistenciais e administrativos, garantindo a continuidade e a segurança do atendimento à população”, diz a SES-DF.
Os equipamentos passam por testes periódicos de carga e abastecimento contínuo de combustível, conforme contratos de manutenção preventiva e corretiva, além da atuação da Subsecretaria de Infraestrutura em Saúde (Sinfra).
Já no caso das escolas, a Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEEDF) afirmou, em nota, que as unidades da rede pública contam com vigilância e que “não há registro de furtos de cabos de energia em unidades escolares, nem de suspensão de aulas por esse motivo”.









