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CIDADES

‘Se eu continuasse ali, viraria estatística’: como sobrevivente de violência doméstica quebrou ciclo e hoje ajuda outras mulheres

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Carla Freire sobreviveu à violência doméstica e criou blog para ajudar outras vítimas Foto: Arquivo pessoal

As ameaças, violência física e psicológica são cicatrizes deixadas por um relacionamento abusivo num passado não tão distante na vida da bacharel em Direito Carla Freire de Oliveira, de 40 anos. Com a libertação, ela encontrou uma forma de ajudar mais mulheres a seguirem em frente. No Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização sobre o enfrentamento à violência doméstica, as vítimas de abuso ganham mais visibilidade e resgatam a voz que foi calada pela violência.

Carla conta que a violência começou de forma sutil, ainda em 2021, mas se intensificou quando foi morar com o parceiro. “Ele quebrou coisas dentro de casa, deu murros na parede. Eu comecei a chorar porque estava muito assustada. Naquele dia, ele me encostou contra a parede e me enforcou, falando que eu ainda não conhecia quem era ele”, relembra.

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Depois, vieram as desculpas e a promessa de que a situação nunca mais se repetiria. Mas não demorou para que tudo voltasse a acontecer. Agressões físicas e verbais, sempre seguidas de pedidos de desculpas. Com o tempo, as ameaças se tornaram mais graves. “Ele dirigia embriagado e gritava que ia me matar. Teve um dia em que ele acelerou o carro em alta velocidade, quase tombou duas vezes e disse que minha mãe merecia me enterrar.”

“Eu fiz uma retrospectiva na minha cabeça e eu vi que as violências estavam aumentando, então eu senti muito medo”, recorda. “Foi quando percebi que, se eu continuasse ali, eu viraria estatística”, completa.

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O rompimento não aconteceu de forma imediata. Carla relata que terminou o relacionamento seis vezes antes de conseguir cortar o vínculo em definitivo. “Em silêncio, eu comecei a me preparar para sair, procurei uma psicóloga pra tentar me fortalecer, procurei um psiquiatra também, porque eu estava muito adoecida, estava com muita ansiedade, muita depressão. E voltei, aos poucos, a fazer algumas coisas por mim”.

“Eu sabia que eu não ia conseguir sozinha, que, se mais uma vez eu saísse por aquela porta, eu voltaria de novo depois de alguns dias, com as promessas vazias dele”. Na época, ninguém sabia que Carla vivia um relacionamento abusivo e sofria com a violência doméstica, por isso ela buscou se reerguer sozinha, enquanto sofria constantes ameaças.

Ela não registrou denúncia à época, por receio das represálias. “Eu pensava que se ele fosse preso, não teria nada a perder e viria para cima de mim. Ele continuou me ameaçando, e eu preferi abrir a página que eu tenho hoje, onde eu falo sobre relacionamento abusivo, para ele ver que, se ele continuasse me ameaçando, eu ia expor toda a história.”

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“Eu estava muito fragilizada. Mas, hoje, eu me sinto muito preparada. Qualquer movimento dele de vir até mim, me ameaçar, com certeza, agora, eu abriria uma denúncia, pediria medida protetiva, entraria com ação contra violência psicológica, contra violência física, até porque eu fiz muitas provas no relacionamento, isso é uma coisa que as vítimas precisam pensar em fazer contra os seus agressores”, confessa.

Embora tenha sofrido agressões físicas, Carla afirma que as feridas mais duras foram deixadas pela violência emocional. “O que mais me machucou foi a violência psicológica. Gaslighting, humilhações, chantagens… Toda mulher que eu converso diz o mesmo: a lembrança que mais dói, não é da agressão física, mas as palavras que nos fizeram duvidar da nossa própria saúde mental”.

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O processo de reconstrução, segundo Carla, veio acompanhado de um novo propósito de vida: transformar a própria dor em apoio para outras mulheres. Assim nasceu o Diário de Libertação, blog e página no Instagram, em que ela compartilha informações sobre violência psicológica, gaslighting, relacionamentos abusivos e autoestima.

“Não tem como você passar por uma guerra e não voltar com nenhuma marca. Mas, hoje, eu lido com essa fase do relacionamento abusivo como um propósito de vida. Hoje, estudo psicologia, sempre converso com outras pessoas e tento de alguma forma acolhê-las para ajudar nos momentos de crise”, conta.

Como romper o ciclo da violência

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A advogada Gabriela Manssur, ex-promotora de Justiça do Estado de São Paulo e especialista na defesa dos direitos das mulheres, reforça que o primeiro passo é romper o silêncio. “Nenhuma mulher precisa viver com medo ou vergonha. Em situações de urgência, ligue 190. Também é possível procurar a Delegacia da Mulher, acionar a Central 180 ou buscar apoio em projetos como o Justiceiras, que oferecem atendimento jurídico, psicológico e de acolhimento”, afirma.

Ela explica que abusadores seguem padrões de comportamento: “Tudo começa com o controle, o ciúme, o isolamento. Depois, vêm as humilhações, e só então a violência física. Reconhecer esses sinais cedo é essencial para interromper o ciclo antes que se agrave.”

Segundo a especialista, o Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo no tema. A Lei Maria da Penha garante medidas protetivas e o afastamento do agressor. Já a Lei do Feminicídio reforça a gravidade dos crimes de gênero. “A lei existe, mas é fundamental que a rede de proteção seja rápida e eficaz. Denunciar é um ato de coragem e autopreservação.”

Canais de apoio disponíveis incluem a Central 180, o Projeto Justiceiras (whatsapp (11) 99639-1212 – site: justiceiras.org.br), a Ouvidoria das Mulheres do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), além de casas de acolhimento e centros de referência. “Informação é poder. Quando a mulher conhece seus direitos, entende que não está sozinha e que a Justiça pode estar ao seu lado”, conclui Gabriela.

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Agosto Lilás

Durante o mês de agosto, o Governo Federal se mobiliza junto ao Ministério das Mulheres pelo Agosto Lilás, um marco anual de conscientização e enfrentamento à violência contra as mulheres. Neste ano, a campanha ganhou o lema “Não deixe chegar ao fim da linha. Ligue 180”, que reforça o papel da Lei Maria da Penha como instrumento de proteção e transformação de vidas.

Em 7 de agosto, a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) completou 19 anos. Reconhecida internacionalmente como uma das legislações mais avançadas no enfrentamento à violência contra as mulheres, a norma estabelece medidas protetivas e instrumentos legais para garantir a segurança e a dignidade das vítimas.

 

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