A liquidação do Will Bank pelo Banco Central levou ao congelamento do dinheiro em conta corrente dos clientes. Em muitos casos, toda a renda para pagar as contas do mês ficou inacessível de uma hora para a outra, resultando em inadimplência e multas por atraso. Especialistas explicam que há como acionar a Justiça para solicitar indenização por danos morais e materiais, mas o reconhecimento do direito e o recebimento do dinheiro são incertos.
O que aconteceu
FGC (Fundo Garantidor de Créditos) permite devolução de até R$ 250 mil por pessoa. O montante é referente apenas aos valores depositados na instituição bancária no momento da liquidação. Os eventuais prejuízos gerados nesse intervalo aos correntistas não são ressarcidos.
É possível pedir indenização ao Will Bank judicialmente, mas recebimento é improvável. Francisco Satiro, professor de Direito da USP, diz que é difícil que a Justiça reconheça esse direito, visto que o congelamento é resultado da liquidação extrajudicial, um processo legal. Caso o cliente ainda assim decida tentar, só é possível processar a instituição financeira que foi liquidada.
Dificilmente vai se reverter em alguma vantagem lá na frente. [Processar] É como investir mais em uma perda que você já teve.
Francisco Satiro, professor de Direito da USP
Segundo especialista, ainda que haja reconhecimento do direito, não dá para esperar que um banco liquidado tenha recursos para pagar indenizações. Isso acontece porque a prioridade é devolver valores originais aos proprietários, quitar dívidas, pagar créditos trabalhistas e tributários. Danos morais vêm em último caso, explica Gustavo Kloh, professor de Direito da FGV. Ele destaca que as ações são caras, demoradas e com baixa chance de pagamento.
Tem uma chance muito pequena de levar [a indenização], porque vai cobrar um banco que no final vai estar com a ‘casca vazia’
Gustavo Kloh, professor de Direito da FGV
Não há como agilizar prazo de devolução do FGC nem solicitar prioridade no pagamento. Após receber a lista de clientes, que ainda depende de envio do Banco Central, é aberto um campo de inscrição para solicitar a devolução no site do fundo, que tem prazo de 30 a 60 dias para ser efetuada.
Clientes reclamam de prejuízos
Vendedor Leonardo Diniz, 32, mora no Rio de Janeiro e viaja amanhã para a Paraíba. Os R$ 3 mil reservados para a viagem, no entanto, ficaram congelados no Will Bank. “Sou cliente desde de 2018. Sempre teve, como qualquer banco, oscilações sistemáticas, mas isso nunca me atrapalhou. Fiquei surpreso hoje, pois fiquei a ver navios”, lamenta.
Ligação entre Will Bank e Master não era conhecida. “Eu não sabia que esse banco era desse tal Master. Na correria do dia a dia, você não procura saber dessas informações. Só vê que o banco é prático e tem boas pontuações do público em geral”, explica.
Ele não está sozinho nos transtornos relacionados ao Will Bank. Nas redes sociais, outros clientes da instituição financeira relataram a angústia de estar com o salário bloqueado.
Por que Will foi liquidado?
Instituição financeira deixou de cobrir pagamentos em operações com a Mastercard em 19 de janeiro. Isso levou ao bloqueio das operações do Will Bank e pagamentos.
Will, que pertence ao também liquidado Banco Master, vinha operando sob RAET (Regime Especial de Administração Temporária) desde 18 de novembro de 2025. O Banco Central tentou levar a financeira adiante, mas o episódio do dia 19 levou o órgão a entender que não havia mais solução ao Will. O Master foi liquidado acusado de grave comprometimento da situação econômico-financeira e por irregularidades sistêmicas, entre elas, a emissão de títulos de crédito falsos, segundo aponta a investigação da Polícia Federal.
Assim, tornou-se inevitável a liquidação extrajudicial da Will Financeira, em razão do comprometimento da sua situação econômico-financeira, da sua insolvência e do vínculo de interesse evidenciado pelo exercício do poder de controle do Banco Master S.A., já sob liquidação extrajudicial.
Banco Central do Brasil
Liquidação é necessária para evitar riscos a todo o sistema financeiro do país. Trata-se de uma medida preventiva para preservar todos os bancos, transações e reservas do país, que pode ser decretada por má gestão, crimes financeiros ou outros fatores. É uma forma de conter problemas generalizados.
Brasil opera com regras financeiras mais rígidas que a maioria dos países do mundo, diz especialista. Satiro diz que o objetivo é preservar o bom funcionamento do sistema financeiro e garantir a segurança do dinheiro de toda a sociedade.
Quando um banco tem problema, existe o risco desse problema passar para outras instituições. O Banco Central liquida rapidamente para minimizar os riscos.
Francisco Satiro, professor de Direito da USP
Como receber a devolução
FGC ainda não liberou solicitações de devolução; baixe o app do fundo e aguarde a abertura do campo. O fundo aguarda recebimento da lista de credores pelo Banco Central para iniciar o processo.
Quando liberado, entre no app para iniciar a solicitação, insira dados bancários, biometria e documentos. Assine o termo de sub-rogação e o dinheiro será transferido à conta cadastrada quando liberado.
O mecanismo de garantia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) está em vigor em favor dos depositantes e investidores do Will Bank. O fato de o Will Bank integrar o conglomerado do Banco Master, liquidado em novembro, torna os cálculos mais complexos. Isso porque parte dos investidores pode já ter ultrapassado o limite máximo de cobertura do FGC, fixado em R$ 250 mil por CPF ou CNPJ.
Clientes que contrataram produtos financeiros antes da aquisição do Will Bank pelo Banco Master, em 2024, terão seus direitos preservados. A partir de 31 de agosto daquele ano, nos casos em que houver aplicações em ambas as instituições, os valores serão consolidados por CPF ou CNPJ, respeitando o teto de R$ 250 mil estabelecido pelo FGC. Além disso, há um teto de R$ 1 milhão por período de quatro anos, no caso de quebra de mais de uma instituição no mesmo período. Os instrumentos garantidos incluem, entre outros, conta corrente, poupança, CDB (Certificado de Depósito Bancário), LCI (Letra de Crédito Imobiliário) e LCA (Letra de Crédito do Agronegócio), conforme regulamento
Evite golpes: o FGC não cobra taxas, não intermedia por terceiros e não pede depósitos antecipados. O pagamento é feito apenas via app ou site. Dúvidas sobre o pagamento podem ser enviadas ao email [email protected]. Dúvidas sobre os valores devem ser enviadas a [email protected].









