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Exército de Israel declara cidade de Gaza “zona de combate perigosa” e moradores buscam abrigo em meio a bombardeios

O Exército israelense declarou nesta sexta-feira, 29, que a cidade de Gaza é agora uma “zona de combate perigosa”, mas não pediu à população que se retire da área imediatamente. O governo de Israel autorizou recentemente uma operação do Exército para tomar o controle do território palestino, onde ainda vivem centenas de milhares de pessoas.
Guilhem Delteil, da redaçãoda RFI em Paris, com agências
“A partir de hoje, às 10h00 (07h00 GMT), a pausa tática local nas atividades militares não se aplicará à zona da cidade de Gaza, que constitui uma zona de combate perigosa”, afirma um comunicado militar.
Essa “pausa tática local” diária havia sido anunciada no fim de julho para a cidade de Gaza e outras áreas do enclave, com o objetivo, segundo o Exército, de “permitir a passagem segura de comboios da ONU” e de ONGs humanitárias no território palestino, devastado pela guerra.
O Exército israelense acrescentou que continuará “apoiando os esforços humanitários paralelamente às manobras e operações militares contra organizações terroristas na Faixa de Gaza”.
Os bombardeios na cidade de Gaza se concentram principalmente no bairro de Zeytoun.
A ofensiva pode provocar o deslocamento de cerca de um milhão de habitantes e o esvaziamento de campos de refugiados no centro do enclave. Muitos moradores já deixaram a cidade em direção ao sul, mas não sabem para onde ir.
“Se Deus quiser, poderemos ficar em Gaza. Mas, se recebermos uma ordem para sair, iremos para o sul. Só não sabemos para onde exatamente”, contou à RFI um dos deslocados.
Essa exaustão é um sentimento compartilhado por todos os habitantes do enclave. As condições de vida são deploráveis, relatam, e marcadas pelo barulho constante de tanques, tratores e drones explosivos.
Um som que “mata o sonho de cada um de manter sua casa, aquela onde esperava voltar”, lamenta uma jovem em uma postagem no Facebook.
“Estou esperando minha vez”, continua. Por enquanto, a ordem de evacuação não chegou, mas ela sabe que sua hora vai chegar e já se questiona: “O que vou levar comigo? Minhas roupas? Ou o pouco de comida que me resta? Talvez essas coisas não tenham valor para algumas pessoas, mas lutei muito para consegui-las, foi um grande esforço.”
Muitos moradores não sabem para onde ir, mas não perdem a esperança de que a guerra um dia termine. “Se Deus quiser, essa guerra vai acabar. Já chega, é demais.”
A Defesa Civil de Gaza informou que 33 pessoas morreram nesta sexta-feira no território palestino. O Exército, procurado pela AFP, não fez comentários até o momento.
Ponto de ruptura
As Nações Unidas estimam que quase toda a população do enclave foi obrigada a deixar sua casa ao menos uma vez nos últimos dois anos, por causa dos combates e bombardeios.
Após uma visita à Cidade de Gaza e seus arredores, a diretora do Programa Mundial de Alimentos, Cindy McCain, declarou que Gaza chegou a um “ponto de ruptura”, onde, segundo a ONU, há uma situação de fome.
Depois de proibir a entrada de ajuda humanitária em março, Israel autorizou seu retorno em maio, embora em volume considerado insuficiente por organizações humanitárias.
“Catálogo de horrores”
Na quinta-feira (28), o secretário-geral da ONU, António Guterres, denunciou “um catálogo interminável de horrores” em Gaza, pouco depois de a Defesa Civil relatar a morte de 26 pessoas em ataques israelenses desde o amanhecer.
“Gaza está coberta de escombros, de corpos e de exemplos do que pode constituir graves violações do direito internacional”, declarou Guterres, quase 700 dias após o início da guerra que devastou o território palestino.
Apesar da crescente pressão internacional e interna para pôr fim à guerra, o Exército israelense declarou na manhã de quinta-feira que suas tropas “seguem com operações contra organizações terroristas em toda a Faixa de Gaza”.
A operação inclui ações em Khan Younis, no sul, e no norte, onde está a cidade de Gaza.
A ofensiva israelense já causou ao menos 62.966 mortes no território palestino, a maioria civis, segundo o Ministério da Saúde controlado pelo governo do Hamas.
Devido às restrições impostas à imprensa em Gaza e às dificuldades de acesso ao território, a AFP não pode verificar de forma independente os números e declarações da Defesa Civil ou do Exército israelense.
