DAVOS (SUÍÇA) – O presidente francês, Emmanuel Macron, fez um alerta contundente contra o ressurgimento de “ambições imperiais” e criticou duramente a política externa dos Estados Unidos, comandada por Donald Trump, durante seu discurso no Fórum Econômico Mundial (FEM) de Davos, nesta terça-feira (20). Em pronunciamento que chamou atenção também pelo uso de óculos escuros – devido a uma ruptura de veia ocular -, ele alertou para uma “mudança para um mundo sem regras, onde o direito internacional é pisoteado e a única regra que parece importar é a do mais forte”.
A crítica direta a Trump foi motivada pelas investidas do presidente americano na Groenlândia, território autônomo da Dinamarca. Macron classificou a postura de Washington como um “enfoque neocolonial” e afirmou que a União Europeia (UE) não se curvará à “lei do mais forte”. “Não é momento para imperialismos e colonialismos. Com a Groenlândia, não ameaçamos ninguém – apoiamos um aliado”, destacou.
Trump havia ameaçado aplicar tarifas adicionais de 10% a países europeus que realizem manobras militares na região, além de um aumento de 200% sobre vinhos e champanhes franceses por conta da recusa de Macron em participar da junta de paz para Gaza proposta pelo republicano. “Os acúmulos intermináveis de novas tarifas são fundamentalmente inaceitáveis, sobretudo quando usadas para pressionar a soberania territorial”, afirmou o presidente francês.
Macron também criticou as exigências comerciais dos EUA, que, na sua visão, visam “enfraquecer e subordinar a Europa”. Ele defendeu que o bloco europeu utilize o mecanismo anti-coerção – conhecido como “bazuca comercial” e lançado em 2023 -, ainda não empregado. “A Europa tem ferramentas muito fortes agora e não devemos hesitar em usá-las quando não somos respeitados e quando as regras do jogo não são cumpridas”, disse. A UE já prepara represalias potencialmente avaliadas em 93 bilhões de euros, com medidas contra produtos como automóveis, whisky e maquinaria.
Além de Trump, Macron fez referências indiretas ao presidente russo, Vladimir Putin, ao alertar para o retorno de tendências autoritárias globais. “Sem governança coletiva, a cooperação dá lugar à competição implacável”, afirmou, em alinhamento com o tema do FEM de 2026, “Colaboração para a Era Inteligente”.
O presidente francês também defendeu que a Europa reduza seus investimentos em títulos estrangeiros – o bloco é um dos principais compradores de dívida norte-americana – e defendeu a entrada de mais investimentos chineses na região, apesar das tentativas de Trump de limitar a presença da Ásia. “Preferimos o respeito aos valentões, a ciência às teorias da conspiração e o estado de direito à brutalidade”, concluiu.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também advertiu Trump durante o fórum, afirmando que aplicar as tarifas seria “um erro, especialmente entre aliados de longa data”, após o pacto entre Washington e Bruxelas que estabelece uma tarifa geral de 15% para bens europeus nos EUA.









