Peru escolhe novo presidente neste domingo: o nono em dez anos de instabilidade política

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Peru escolhe novo presidente neste domingo: o nono em dez anos de instabilidade política

Os cerca de 27 milhões de eleitores peruanos voltam às urnas neste domingo para definir quem será o próximo presidente da República — o nono mandatário em apenas uma década. Desde 2016, o país vive uma sucessão de crises: dois presidentes renunciaram e seis foram destituídos por um Congresso forte e atuante, considerado, na prática, o centro do poder político nacional.

No segundo turno, disputam o comando do país a direitista Keiko Fujimori — que obteve 17,1% dos votos na primeira etapa — e o esquerdista Roberto Sánchez Palomino, que somou 12,0%. Embora Fujimori tenha saído na frente, analistas alertam para um resultado indefinido, marcado por forte polarização.

Polarização e herança histórica

Para o professor da Unifesp e antropólogo Salvador Schavelzon, a presença de Keiko remete a divisões profundas do Peru. Filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990–2000), condenado por violações de direitos humanos — incluindo esterilizações forçadas de mulheres indígenas —, ela carrega tanto votos fiéis quanto uma rejeição expressiva. “Há uma força política majoritária que se identifica com o antifujimorismo, e Sánchez tem conseguido representar essa bandeira”, avalia.

Sánchez, ex-aliado e ex-ministro de Pedro Castillo, promete mudanças estruturais: quer reformar a Constituição herdada da era Fujimori e ampliar direitos sociais. “Ele também incorpora o voto do interior rural, que costuma ser mais difícil de captar pelas pesquisas”, explica Schavelzon. Castillo, eleito em 2021 justamente com apoio do interior, foi destituído e preso após tentativa de dissolver o Parlamento; seu governo é visto por apoiadores como vítima de um sistema hostil a lideranças populares.

Geopolítica em jogo

A escolha também deve influenciar os rumos regionais, num continente que recentemente tem visto governos se aproximarem dos Estados Unidos — como na Argentina, Chile, Bolívia e Equador. Segundo Schavelzon, uma vitória de Keiko Fujimori deve aprofundar esse alinhamento com o governo de Donald Trump e com correntes de extrema-direita da América Latina.

Já um eventual triunfo de Sánchez não significaria, necessariamente, uma ruptura brusca com Washington. “Ele tem uma postura pragmática e enfrentaria forte oposição parlamentar logo no início. Sua prioridade seria se consolidar politicamente, sem condições para uma guinada geopolítica radical”, pondera o especialista.

Uma década sem estabilidade

O último presidente a cumprir mandato integral foi Ollanta Humala (2011–2016), hoje condenado a 15 anos por lavagem de dinheiro ligada ao caso Odebrecht. Depois disso, a instabilidade se acentuou:

-Pedro Castillo foi deposto e condenado a mais de 11 anos por rebelião;

-Dina Boluarte, sua sucessora, enfrentou protestos violentos que deixaram 49 mortos (dados da Anistia Internacional) e também foi destituída em outubro de 2025;

-Seguiram-se as breves gestões de José Jerí (quatro meses) e, depois, de José María Balcázar Zelada, indicado indiretamente pelo Legislativo.

Agora, o eleitorado decide quem vai tentar governar um país profundamente dividido, onde a sobrevivência política de qualquer presidente passa, antes de tudo, pela difícil convivência com o Congresso.

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