RIO BRANCO (AC) – Dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, revelam um cenário contraditório no enfrentamento ao tráfico de drogas no Acre em 2025: enquanto o número de registros de ocorrências cresceu 4,58% em comparação com o ano anterior, o volume total de entorpecentes apreendidos caiu de forma expressiva. A tendência aponta para uma mudança nas táticas das organizações criminosas, que passam a adotar fracionamento de cargas e pulverização da distribuição, especialmente nas fronteiras com Peru e Bolívia.
Ao longo de 2025, foram registradas 868 ocorrências de tráfico no estado – uma média de duas por dia. No entanto, as apreensões mostraram queda acentuada: 34,74% na maconha e 54,08% na cocaína, que segue como a principal droga em circulação no Acre.
Maconha e cocaína registram queda expressiva nos volumes apreendidos
Foram apreendidos 258 quilos de maconha em 2025, com oscilações mensais significativas: maio liderou com 93 quilos, seguido de outubro com 50 quilos, enquanto agosto e setembro tiveram apenas 1 quilo cada. Já na cocaína, o total foi de 856 quilos – com destaque para maio (235 quilos) e outubro (123 quilos), e baixos índices em março (8 quilos), setembro e novembro (4 quilos cada).
Para o coordenador da Divisão Especializada de Investigações Criminais Especiais (DEIC) da Polícia Civil do Acre, Pedro Paulo Buzolin, a dinâmica do tráfico sempre esteve atrelada a grandes estruturas financeiras, mas o foco atual no combate ao dinheiro sujo pode ter reduzido os recursos disponíveis para as organizações criminosas. “Aquela pessoa que cai com a droga não comprou aquele carregamento, ela estava a serviço de alguém. Essa lógica sempre existiu”, afirmou.
O delegado explica ainda que a integração entre forças de segurança estaduais, Federal e Rodoviária levou a uma mudança de abordagem: muitos carregamentos que passam pelo Acre são monitorados durante o percurso e apreendidos apenas em seus destinos finais. “Ao invés de fazer uma barreira de fiscalização para apreensão, trabalhamos na investigação para extrair informações que nos levam aos líderes do tráfico”, detalhou.
Novas rotas e fracionamento de cargas são apontados como causas
A Polícia Rodoviária Federal (PRF) no Acre reconhece a redução nos volumes apreendidos desde 2023, mesmo com o reforço das ações de fiscalização. Em nota, a superintendência informou que a tendência é observada de forma conjunta entre as instituições, destacando que “o crime tem utilizado cada vez mais novas rotas e modos de traficância”.
O coordenador do Grupo Especial de Fronteira (Gefron) no Acre, coronel Assis dos Santos, complementa que a ampliação da fiscalização em áreas tradicionais provocou adaptações diretas por parte do crime organizado. “Quando as grandes apreensões geram prejuízos elevados, eles passam a transportar menores quantidades em mais pontos, reduzindo o risco e o prejuízo. As grandes apreensões ficaram raras, mas aumentaram as pequenas”, explicou.
Em 2025, o Gefron realizou 231 operações, com 34 relacionadas diretamente ao tráfico de drogas. Foram apreendidos 851,38 quilos de entorpecentes, além de 80.245 maços de cigarros contrabandeados, 53 veículos, 10 armas e 99 conduções ou prisões – com descapitalização estimada em mais de R$ 16,4 milhões para o crime organizado.
Dos Santos destaca ainda que o tráfico de drogas não é a única fonte de renda das organizações na região: a venda de cigarros contrabandeados já é a segunda maior atividade financeira do crime organizado no Acre. “É uma atividade altamente rentável e que financia outras práticas ilícitas”, afirmou.









