O Sistema Único de Saúde (SUS) dá um passo decisivo no combate a infecções causadas pela bactéria Streptococcus pneumoniae, o pneumococo. A partir do próximo mês, entra no calendário oficial de imunização a vacina pneumocócica conjugada 20-valente (VPC20), também chamada de Pneumo 20, que substitui a versão de 10 tipos utilizada desde 2010. Com a atualização, o número de cepas combatidas pelo imunizante dobra, oferecendo defesa mais ampla contra quadros graves como pneumonia, meningite e sepse.
O Ministério da Saúde publicou nesta quarta-feira (27) um guia técnico com todas as orientações para as equipes de saúde. A aplicação começa assim que estados e municípios receberem os novos lotes distribuídos pelo governo federal.
Por que a troca era necessária?
A doença pneumocócica pode variar de quadros leves, como inflamação de ouvido e sinusite, até complicações fatais. Estimativas indicam que essa bactéria é responsável por até 50% dos casos de meningite bacteriana em crianças, com taxa de mortalidade em torno de 30%. Idosos, pessoas com doenças crônicas ou o sistema imunológico enfraquecido também estão entre os grupos mais vulneráveis.
Quando a vacina de 10 tipos foi introduzida, houve uma queda expressiva nos registros: redução de 60% nos casos causados por esses sorotipos em crianças de até dois anos, e recuo de 65% nas meningites provocadas pela bactéria na mesma faixa etária. Nos últimos anos, porém, os números voltaram a subir. Entre 2013 e 2019, a média anual era de 164 casos de meningite pneumocócica em menores de 5 anos; entre 2022 e 2024, esse número saltou para 211,3 por ano.
Para Flávia Bravo, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, esse crescimento segue uma lógica esperada pela epidemiologia. “Ao controlarmos dez tipos da bactéria, reduzimos sua circulação, mas outras versões passaram a ocupar esse espaço. Dados mostram que quase 40% dos casos graves registrados entre 2018 e 2023 foram causados por cepas que não estavam na vacina antiga — mas que estão incluídas na nova”, explicou a especialista.
Além disso, cerca de 11% dos casos de meningite em crianças menores de 1 ano hoje são provocados por agentes que agora serão combatidos. “Com a atualização, voltamos a atacar exatamente o que está causando adoecimento atualmente, o que deve fazer os índices caírem novamente”, completou Bravo.
Um benefício importante: vacinas como a VPC20 não só evitam que a pessoa fique doente, como também impedem que a bactéria se instale na garganta ou nariz, reduzindo a transmissão para outras pessoas.
Quem deve tomar e como será o esquema?
Antes da mudança, o SUS já disponibilizava versões mais completas (VPC13 e VPP23), mas apenas para grupos específicos com condições de saúde que elevavam o risco. Agora, a VPC20 unifica a proteção e substitui todas as versões anteriores à medida que os estoques forem acabando.
O calendário básico mantém a recomendação para bebês: duas doses, aos 2 e aos 4 meses, além de um reforço aos 12 meses. Crianças menores de 5 anos que não foram vacinadas na época correta devem procurar uma unidade de saúde para atualizar a carteira.
Durante a fase de transição, valem regras específicas:
-Quem iniciar a vacinação receberá a VPC20 na primeira dose, a versão 10-valente na segunda e novamente a nova vacina no reforço;
-Quem já tomou a primeira dose da VPC10 receberá a VPC20 na segunda aplicação e no reforço;
-Crianças menores de 5 anos que já completaram o esquema antigo ainda ganharão uma dose extra da nova vacina para ampliar a proteção.
Além das crianças, seguem como prioridade os grupos de alto risco: pessoas vivendo com HIV/aids, pacientes oncológicos, transplantados, pessoas com imunodeficiência, doenças crônicas nos rins, pulmão, coração ou fígado, asmáticos graves, diabéticos, pessoas com síndrome de Down e nascidos prematuros.
A vacina só não é recomendada para quem apresenta alergia grave a algum componente da fórmula ou já teve reação severa em doses anteriores. Quem estiver com febre no dia agendado deve adiar a aplicação até se recuperar totalmente.












