Levantamento inédito aponta que o Acre divide com Maranhão e Amazonas os piores índices de insegurança alimentar do Brasil em 2022, enquanto Santa Catarina registrou o menor patamar nacional. Os dados fazem parte do Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar (MUFII), criado pelo pesquisador Lucas de Almeida Moura, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome, ligado à Faculdade de Saúde Pública da USP.
Publicado na revista científica Sustainability, o estudo analisa o período de 2018 a 2022 com base em 12 indicadores de desenvolvimento sustentável. Constatou ainda que a maioria dos estados das regiões Norte e Nordeste apresenta índices acima de 50% de insegurança alimentar multidimensional.
Cenário nacional vs. realidade regional
O quadro contrasta com o resultado oficial do país: em julho de 2025, o Brasil deixou o Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), reduzindo para menos de 2,5% a parcela da população em situação de subnutrição ou falta de alimentação suficiente. Mesmo assim, cerca de 6,5 milhões de brasileiros continuam com insegurança alimentar grave, conforme dados da Agência Brasil.
Caminhos para manter avanços
Para o autor do estudo Lucas de Almeida Moura, a permanência desse resultado depende da continuidade de políticas públicas que vão além da simples oferta de alimentos. “É preciso garantir renda mínima, educação, água, saneamento, segurança pública e emprego para tornar essas conquistas duradouras”, destacou.
A secretária Extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do Ministério do Desenvolvimento Social, Valéria Burity, credita parte da redução da fome ao Plano Brasil sem Fome — com investimentos na agricultura familiar, reajuste da alimentação escolar e apoio a cozinhas comunitárias. “Nosso foco agora é incluir nas ações quem ainda está vulnerável, com suporte direto a estados e municípios”, afirmou.
O que explica a queda da fome no país?
Especialistas ouvidos listam três eixos principais:
1. Combate à desigualdade: com o menor desemprego em 13 anos e reajustes do salário mínimo acima de 6% desde 2022, conforme Semíramis Domene, professora da Unifesp e diretora do Instituto Fome Zero;
2. Proteção social: fortalecimento do Bolsa Família, do SUS e modernização do Cadastro Único em 2025;
3. Produção de alimentos: retomada do financiamento ao Programa de Aquisição de Alimentos, que estava praticamente desativado.
Já o economista Daniel Duque, da FGV, acrescenta a desaceleração dos preços dos alimentos a partir de 2023, impulsionada por boas safras. Para ele, manter o mercado de trabalho aquecido é o principal desafio para não retornar ao cenário anterior. “Até agora não há sinais de reversão dos empregos, mas é preciso sustentar essa trajetória”, avaliou.












