Um ataque hacker à Binance desviou US$ 6,3 bilhões, cerca de R$ 34 bilhões, na quinta-feira (29), no maior roubo já registrado no mercado de criptomoedas, segundo especialistas. A maior parte dos recursos foi retirada em aproximadamente 20 minutos. Após a invasão, a corretora suspendeu os saques e anunciou que assumirá as perdas.
A empresa informou que os recursos dos clientes estão protegidos e que utilizará dinheiro próprio e reservas de emergência para compensar o prejuízo. Na atualização divulgada, a previsão era restabelecer os saques em até 45 horas. Segundo a plataforma, os depósitos não foram afetados.
As empresas americanas TRM Labs e Chainalysis, especializadas no rastreamento de criptomoedas, apontam indícios de envolvimento de hackers ligados à Coreia do Norte. A Binance, contudo, afirmou que ainda não identificou oficialmente os responsáveis.
De acordo com a Reuters, a corretora trabalha com autoridades de diferentes países, incluindo o FBI e o Serviço Secreto dos Estados Unidos, para investigar o crime e tentar impedir a movimentação dos valores.
A apuração inicial levantou a hipótese de que os invasores tenham acessado os sistemas por meio do computador de um engenheiro da empresa. Posteriormente, a Binance informou ter encontrado outras possíveis falhas de segurança.
Segundo a TRM Labs, o ataque comprometeu o mecanismo usado para autorizar transferências. Registros analisados por especialistas indicam que a maior parte do desvio ocorreu por volta das 17h, no horário de Brasília. Na sequência, os criminosos passaram a distribuir os recursos para dificultar o rastreamento e eventuais bloqueios.
Até o momento, aproximadamente US$ 3 bilhões, equivalentes a R$ 16,2 bilhões, foram localizados. Uma parcela já teve a movimentação impedida com a colaboração de empresas do setor, mas o bloqueio não representa a devolução do dinheiro à Binance. A situação dos US$ 3,3 bilhões restantes ainda não foi totalmente esclarecida.
Parte do montante estava em stablecoins, moedas digitais criadas para acompanhar um valor de referência, geralmente o dólar. Algumas permitem que suas emissoras congelem os recursos, impedindo novas transferências mesmo depois de um roubo.
A Tether informou ter congelado quase US$ 1,57 bilhão. A Circle bloqueou mais de US$ 800 milhões, enquanto a Ripple imobilizou aproximadamente US$ 200 milhões. Segundo a Reuters, a World Liberty Financial, ligada ao presidente americano Donald Trump e à sua família, também colaborou com as ações de bloqueio.
A dificuldade é maior no caso de Bitcoin e Ether, que não contam com uma empresa central capaz de interromper diretamente as transferências. A TRM Labs estima que cerca de US$ 2,4 bilhões nessas criptomoedas estejam fora do alcance imediato dessas medidas.
Uma possibilidade de interceptação seria a passagem dos recursos por uma corretora disposta a bloquear as operações dos criminosos.
Os rastreadores também identificaram semelhanças com a invasão à Bybit, em 2025, atribuída pelo FBI a hackers norte-coreanos. Para a TRM Labs, o mesmo grupo pode estar por trás do ataque à Binance.
Autoridades dos Estados Unidos e da Coreia do Sul acusam há anos o governo norte-coreano de recorrer a ataques cibernéticos para obter recursos e financiar suas atividades. O país nega essas acusações.
Para cobrir as perdas, a Binance pretende recorrer, entre outras fontes, ao SAFU, fundo criado para proteger clientes em episódios de falhas de segurança. A reserva tem aproximadamente US$ 1 bilhão em Bitcoin, valor inferior ao total desviado.
Mercado pressionado
A notícia também pressionou o mercado nesta sexta-feira (30). O Bitcoin recuou mais de 3%, chegando a US$ 77.356,6, menor cotação em seis semanas. O Ether perdeu mais de 3% e atingiu US$ 2.178, o nível mais baixo em dois meses. Já o BNB, utilizado para pagar taxas na Binance, caiu 5% em 24 horas, para US$ 709,70.
Entre as empresas negociadas nas bolsas americanas, as ações da Coinbase recuaram 4,8%, enquanto os papéis da Strategy, que mantém grandes investimentos em Bitcoin, perderam quase 6% nas negociações após o fechamento regular. A Coinbase afirmou que não foi afetada pela invasão.
Fundada em Xangai, na China, em 2017, a Binance permite comprar, vender e armazenar criptomoedas. Conforme seu relatório anual de 2025, a plataforma reúne 335 milhões de usuários cadastrados e mantinha US$ 162,8 bilhões em ativos digitais sob sua responsabilidade.












