Túmulo das Correntes: história desvenda origem de lenda centenária em Sena Madureira

3 Min Read
Túmulo das Correntes: história desvenda origem de lenda centenária em Sena Madureira

Um dos monumentos mais curiosos e cercados de histórias populares do Cemitério São João Batista, em Sena Madureira, ganha finalmente seu devido lugar na história. Pesquisa realizada pelo morador local Raife Arante reconstituiu a verdadeira origem do chamado Túmulo das Correntes, desmistificando versões que circularam por décadas entre os moradores.

O mausoléu pertence a Possidônio Bellarmino Barbosa, morto em 8 de junho de 1912, durante os conflitos políticos que marcaram a região do Acre naquele período. Ele trabalhava como guarda do 1º Posto Fiscal de Sena Madureira e integrou as forças que resistiram à ofensiva federal na cidade, sendo atingido fatalmente na cabeça enquanto defendia uma das trincheiras locais.

O conflito faz parte de um dos momentos mais tensos da história acreana: em 1912, um movimento local depôs a autoridade nomeada pelo governo federal e chegou a proclamar um Estado independente. A resposta veio com tropas federais que atacaram Sena Madureira no dia 8 de junho, em combate que durou cerca de seis horas.

Nos primeiros anos, o túmulo era mais simples e ainda não contava com as correntes. A própria família do homenageado pediu apenas autorização para instalar grades de proteção. Somente em 1916 e 1917, graças a doações de moradores organizados por amigos e familiares, o mausoléu foi erguido com o formato que se conhece hoje — incluindo as quatro correntes originais e uma harpa na fachada.

A pesquisa deixa claro: não há qualquer registro de que as correntes tenham sido colocadas para “impedir que o morto saísse”. Elas faziam parte, simplesmente, do projeto arquitetônico. Já a harpa seria uma referência à família de Possidônio, tradicionalmente ligada à música. A inscrição no monumento o homenageia como “vítima heroica” da causa acreana.

Com o passar das décadas, o conhecimento sobre os acontecimentos de 1912 foi se perdendo, enquanto as correntes continuavam visíveis e chamativas. O contraste entre o monumento imponente e o esquecimento de sua história abriu espaço para interpretações folclóricas e relatos sobrenaturais que, segundo o estudo, não encontram amparo em documentos.

O alerta final do pesquisador é sobre a conservação do local. Dos quatro conjuntos de correntes originais, apenas uma permanece. A harpa e outras partes do mausoléu também apresentam sinais visíveis de deterioração — um patrimônio histórico que corre contra o tempo.

Propaganda
Compartilhe este artigo