MUNDO
Hospitais estão sobrecarregados com protestos em massa no Irã, dizem médicos

Médicos de dois hospitais diferentes no Irã disseram à BBC que os locais em que trabalham estão sobrecarregados com feridos, em meio a protestos em massa no país nas últimas semanas.
Um médico disse que um hospital oftalmológico de Teerã está em situação de crise. O paramédico de outro hospital disse que não há médicos suficientes para lidar com o grande número de pacientes.
Na sexta-feira (7/1), o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que o Irã estava em “grandes apuros” e alertou: “É melhor vocês não começarem a atirar, porque nós também começaremos a atirar”.
Em uma carta ao Conselho de Segurança da ONU, o Irã culpou os EUA por transformarem os protestos no que chamou de “atos subversivos violentos e vandalismo generalizado”.
Já líderes internacionais fizeram um apelo para que o direito ao protesto pacífico do povo iraniano seja protegido.
Protestos contra o governo ocorreram em dezenas de cidades do Irã, com dois grupos de direitos humanos relatando que pelo menos 50 manifestantes foram mortos.
A BBC e a maioria das outras organizações internacionais de notícias estão proibidas de trabalhar dentro do Irã. O país está sob um bloqueio de internet quase total desde a noite de quinta-feira (8/1), dificultando a obtenção e verificação de informações.
Um médico iraniano, que contatou a BBC via internet com satélite Starlink na noite de sexta-feira (9/1), disse que o Hospital Farabi, principal centro especializado em oftalmologia de Teerã, está em crise, com os serviços de emergência sobrecarregados.
Internações e cirurgias não urgentes teriam sido suspensas, e a equipe foi convocada para lidar com casos de emergência.
A BBC também obteve uma mensagem em vídeo e áudio de um médico em um hospital na cidade de Shiraz, no sudoeste do país, na quinta-feira. O médico disse que um grande número de feridos estava sendo levado para o hospital, e que não há médicos suficientes para lidar com o fluxo de pacientes. Ele afirmou que muitos dos feridos têm ferimentos de bala na cabeça e nos olhos.
Reações no Irã e no mundo
Desde o início dos protestos em 28 de dezembro, pelo menos 50 manifestantes e 15 membros das forças de segurança foram mortos, segundo a agência de notícias Human Rights Activist News Agency (HRANA), sediada nos EUA. Mais de 2.311 pessoas também foram presas, informou o grupo.
A organização Iran Human Rights (IHRNGO), sediada na Noruega, afirmou que pelo menos 51 manifestantes, incluindo nove crianças, foram mortos.
A BBC Persian (serviço de notícias da BBC em persa) conversou com as famílias de 22 deles e confirmou suas identidades.
O porta-voz do Secretário-Geral das Nações Unidas, Stéphane Dujarric, disse que a ONU estava muito abalada com a perda de vidas.
“As pessoas em qualquer lugar do mundo têm o direito de se manifestar pacificamente, e os governos têm a responsabilidade de proteger esse direito e garantir que ele seja respeitado”, disse ele.
O presidente francês, Emmanuel Macron, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, divulgaram uma declaração conjunta que dizia: “As autoridades iranianas têm a responsabilidade de proteger sua própria população e devem permitir a liberdade de expressão e de reunião pacífica sem medo de represálias.”
O líder supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei, manteve um tom desafiador em um discurso na televisão na sexta-feira, afirmando: “A República Islâmica chegou ao poder com o sangue de centenas de milhares de pessoas honradas e não recuará diante daqueles que negam isso.”
Mais tarde, em declarações feitas a uma multidão de apoiadores e transmitidas pela televisão estatal, Khamenei reiterou a mensagem, dizendo que o Irã “não se furtará a lidar com elementos destrutivos”.
O embaixador do Irã na ONU acusou os EUA de “interferir nos assuntos internos do Irã por meio de ameaças, incitação e encorajamento deliberado à instabilidade e à violência”, em uma carta ao Conselho de Segurança da ONU.
Em contraste, Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã, descreveu os protestos de sexta-feira como “magníficos” e instou os iranianos a realizarem mais protestos durante o fim de semana.
“Nosso objetivo não é mais apenas ir às ruas. O objetivo é nos prepararmos para tomar e manter o controle dos centros das cidades”, disse Pahlavi, que mora nos EUA, em uma mensagem de vídeo nas redes sociais.
Pahlavi, uma das figuras de oposição mais conhecidas, disse que estava se preparando para retornar ao país, afirmando estar confiante de que os protestos levarão a República Islâmica “à ruína”.
O ex-embaixador britânico no Irã, Simon Gass, disse à BBC que “realmente não devemos nos precipitar” ao discutir a mudança de regime.
Ele disse que a falta de uma oposição organizada dentro do Irã significa que as pessoas não têm nenhum líder que apresente uma alternativa ao regime atual.
Ele acrescentou, no entanto, que esses protestos são diferentes dos anteriores vistos no país, que estão trazendo “um movimento de manifestantes muito mais amplo do que costumávamos ver no passado”, desencadeado por pessoas comuns que acham “quase impossível sobreviver por causa do desastre na economia”.
Alerta de Trump
Na sexta-feira, na Casa Branca, Trump disse que seu governo estava acompanhando atentamente a situação no Irã.
“Me parece que as pessoas estão tomando o controle de certas cidades que ninguém imaginava ser possível há apenas algumas semanas”, disse ele.
Ele reiterou avisos anteriores dados à liderança iraniana, dizendo: “Vamos atacá-los com muita força onde dói”. Ele acrescentou que qualquer envolvimento dos EUA não significa “tropas em solo iraniano”.
Na quinta-feira, Trump disse que os “atacaria com muita força” se eles “começassem a matar pessoas”.
Mais tarde, na sexta-feira, os EUA disseram que o ministro das Relações Exteriores do Irã estava “delirando” depois de acusar Israel e Washington de alimentar os protestos.
“Esta declaração reflete uma tentativa delirante de desviar a atenção dos enormes desafios que o regime iraniano enfrenta internamente”, disse um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA em resposta aos comentários do ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, durante uma visita ao Líbano.
No início da manhã de sábado, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, publicou no Facebook: “Os EUA apoiam o bravo povo do Irã”.
Entretanto, as autoridades de segurança e judiciais iranianas emitiram uma série de avisos coordenados aos manifestantes na sexta-feira, endurecendo sua retórica e ecoando uma mensagem anterior de “nenhuma clemência” do principal órgão de segurança do Irã, o Conselho Supremo de Segurança Nacional (CSSN).
O Conselho de Segurança Nacional do Irã afirmou que “medidas legais decisivas e necessárias serão tomadas” contra os manifestantes, que descreveu como “vândalos armados” e “perturbadores da paz e da segurança”.
O braço de inteligência da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) afirmou que não tolerará o que descreveu como “atos terroristas”, assegurando que continuará suas operações “até a completa derrota do plano do inimigo”.








