Rio Branco está entre as cidades brasileiras com alto risco de estresse hídrico, segundo dados da plataforma AdaptaBrasil, do governo federal. A capital acreana divide o quadro de atenção com Belém, Manaus e Campo Grande, em levantamento que avalia oferta, disponibilidade e demanda de água nos 5.570 municípios do país. A informação é destaque da revista Pesquisa FAPESP, que analisa a força do fenômeno climático e seus impactos.
A NOAA, órgão norte-americano de monitoramento ambiental, confirmou em junho a formação do El Niño. Em agosto, a instituição elevou a probabilidade de ele ser “muito forte” a 90%, com 69% de chance de ser o mais intenso desde 1950 — aquecimento próximo de 3 °C no Pacífico. O fenômeno costuma provocar mais chuva no Sul e Sudeste e reduzir a umidade na região Norte, com efeitos mais sentidos entre o fim do ano e o início do seguinte.
O histórico reforça a preocupação: em 1997–1998, o fenômeno causou seca severa na Amazônia; em 2024, associado ao aquecimento do Atlântico, o rio Negro atingiu o nível mais baixo já registrado. Em 2026, a Organização Meteorológica Mundial indica que o segundo fator ainda não se confirmou, o que pode atenuar os impactos.
“Super El Niño”: fenômeno ou combinação de crises?
O climatologista José Marengo, do Cemaden, esclarece que o termo “super El Niño” não faz parte da classificação oficial. Na prática, expressa a soma do aquecimento do Pacífico com o aquecimento global. O professor Tercio Ambrizzi (USP) alerta para eventos compostos: seca e onda de calor atuando juntas, gerando recordes extremos. Estudo da Fiocruz registrou mais de 120 mil mortes associadas a ondas de calor no Brasil entre 2000 e 2019.
O AdaptaBrasil mostra que risco e vulnerabilidade nem sempre caminham juntos: São Paulo, Rio e Porto Alegre têm risco elevado de enchentes, mas menor vulnerabilidade por possuírem estrutura de resposta mais sólida. Já no Norte e Nordeste, a dificuldade de acesso a saneamento, estradas e renda torna a recuperação mais lenta.
Para Marengo, o fenômeno não pode ser evitado, mas seus danos podem ser gerenciados: “Armazenar água, investir em infraestrutura e planejar tornam-se urgentes. O El Niño deixou de ser apenas climático — é também socioeconômico”. Ambrizzi reforça: “Mesmo que a estiagem seja longa, vai chover. É preciso estar preparado para guardar esse recurso”.












