A tensão interna no Supremo Tribunal Federal ganhou contornos sem precedentes nos últimos 15 dias. Desde 1º de setembro, quando o ministro André Mendonça decidiu revelar o conteúdo de um relatório da Polícia Federal com conversas entre Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, foram registradas pelo menos 44 movimentações — despachos, ofícios e decisões — ligadas ao caso. Os números são de levantamento da CNN.
O presidente da Corte, ministro Edson Fachin, foi quem mais agiu no período, com 12 atos. Em seguida aparece Mendonça, com 9, Alexandre de Moraes, com 8, Flávio Dino, com 6, Gilmar Mendes, com 5, Cristiano Zanin, com 3, e Luiz Fux, com 1. Três ministros não participaram da disputa: Cármen Lúcia, Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli.
Tudo começou quando Mendonça solicitou a manifestação da Procuradoria-Geral da República sobre as mensagens trocadas e determinou o fim do sigilo das conversas. A resposta veio de Moraes, que pediu a abertura de investigação contra Mendonça por suposta improbidade, alegando direcionamento de apurações e proteção a aliados.
A partir daí, a Corte se dividiu. Um grupo próximo a Moraes passou a defender publicamente que Mendonça omitiria informações comprometedoras. O embate passou a girar em torno do acesso a investigações ligadas ao Banco Master e da retirada de sigilo de processos. Mendonça acabou revelando o conteúdo de ao menos 38 processos relacionados ao caso, mas a ala contrária cobrou novas medidas, incluindo a divulgação de relatórios de inteligência financeira sobre Vorcaro.
Inicialmente com atuação contida, o ministro Edson Fachin passou a comandar a situação após o afastamento — e posterior retorno — do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Mendonça havia determinado o afastamento preventivo; Flávio Dino revogou a decisão em movimento inédito entre pares. No mesmo dia, Fachin redistribuiu processos: retirou de Moraes a relatoria do inquérito das fake news e de Mendonça a condução do caso sobre as mensagens com Vorcaro.
Fachin marcou então para 15 de setembro a análise sobre a abertura de investigação contra Moraes e, posteriormente, agendou para o dia 23 o exame da conduta de Mendonça.
A batalha se estendeu também ao aparelho celular de Daniel Vorcaro. Zanin, Gilmar Mendes e Moraes pediram acesso ao conteúdo; Mendonça informou que os dados estavam lacrados na PF e em seu gabinete. O material foi entregue às vésperas da sessão, e após o julgamento Fux e Mendonça também solicitaram vistas.
No dia marcado, o impasse persistiu. Moraes pediu que os processos fossem analisados em conjunto; Fachin negou. Flávio Dino apresentou questão de ordem para unir os casos e remover Fachin da relatoria, mas em seguida pediu vista, adiarndo tudo por até 90 dias. A investigação sobre Moraes não chegou a ser votada.
Paralelamente, Dino divulgou trechos de outra investigação e enviou a Fachin elementos sobre possíveis conflitos de interesse de Mendonça em um processo de cemitérios em São Paulo.
Entre os que se mantiveram à margem, Cármen Lúcia declarou-se envergonhada com a situação e pediu desculpas à população brasileira. Toffoli e Kassio Nunes Marques declararam-se impedidos de participar do julgamento.












