Um embate institucional e político se desenrola nos bastidores do Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC) em torno da nomeação de um novo conselheiro, com articulações que visam postergar a decisão e transferir a prerrogativa do governador Gladson Cameli para a vice-governadora Mailza Assis. O impasse se deve ao atraso na elaboração da lista tríplice pelo Ministério Público de Contas (MPC), etapa obrigatória para a escolha, que encontra-se travada por divergências internas.
A formação da lista segue, tradicionalmente, o critério de antiguidade entre os procuradores do MPC – órgão que conta atualmente com quatro membros, o que significa a exclusão de um deles. O procurador João Isidro, que ficaria de fora do grupo de três, manifesta insatisfação com o modelo, mesmo que esteja alinhado à prática histórica da instituição. Essa divergência é apontada como um dos principais fatores para o atraso no encaminhamento da lista ao TCE e, consequentemente, ao Executivo.
A demora ganha relevância ainda maior diante do calendário: Gladson Cameli deixará o governo no dia 2 de abril para disputar uma vaga no Senado Federal, e até lá detém exclusivamente a prerrogativa constitucional de escolher o novo conselheiro a partir da lista tríplice.
Nos corredores do Poder Judiciário estadual, há percepção de que o atraso não é apenas de ordem técnica. Indícios apontam para uma articulação que busca adiar a definição até que Mailza Assis assuma o comando do Estado. Nesse cenário, destaca-se a atuação da conselheira Naluh Gouveia, conhecida por sua postura crítica ao governo atual, que estaria movimentando-se para favorecer a nomeação da procuradora Ana Helena.
Em uma tentativa de avançar na estratégia, Naluh Gouveia se reuniu com a vice-governadora, acompanhada de outro conselheiro, para tratar do tema. No entanto, Mailza Assis respondeu de forma institucional, afirmando que não poderia discutir o assunto enquanto a prerrogativa permanecer com Gladson Cameli – uma postura que frustrou, temporariamente, a articulação.
Além da vaga de conselheiro, a disputa também gira em torno do futuro comando da Corte. Pela tradição interna, o conselheiro mais novo tende a assumir a presidência do TCE-AC futuramente, o que torna o próximo nomeado um potencial líder da instituição.
Segundo fontes ouvidas pela reportagem, haveria um entendimento prévio entre Naluh Gouveia e Ana Helena: caso a procuradora seja nomeada, abriria mão da presidência, permitindo que Naluh ocupasse o cargo. A articulação é vista por interlocutores como um movimento de consolidação de poder dentro da Corte, com reflexos para a gestão atual e para a futura administração de Mailza Assis.
Em meio ao impasse, circula informalmente uma proposta inusitada: a elaboração de uma lista com quatro nomes, ao invés dos três previstos. A ideia é considerada uma contradição lógica e jurídica pelos envolvidos, que comparam a sugestão a “resolver uma equação ignorando a matemática”. Para os observadores, trata-se de uma tentativa de contornar o critério de antiguidade e acomodar interesses dentro do MPC.
A expectativa é que o governo adote medidas para garantir que a escolha seja feita ainda durante o mandato de Gladson Cameli, que já foi alertado sobre as movimentações e acompanha o processo de perto. Para quem segue as discussões, a demora pode alterar o equilíbrio de forças no TCE-AC: “Quem demora a ocupar seu espaço acaba abrindo caminho para que outros o façam”, resume um observador próximo ao caso.
Mais do que uma escolha administrativa, a definição do novo conselheiro se configura como um capítulo central da disputa por poder no cenário político acreano.












