As ideias do economista André Lara Resende, um dos autores do Plano Real, voltaram ao centro do debate após notícias de que ele se reuniria com o presidente Lula. Durante o programa Hora H desta segunda-feira (2), a âncora Thais Herédia e a analista Lucinda Pinto destrincharam os principais pontos e os riscos de cada medida.
Juros em queda acentuada
A proposta mais ousada prevê reduzir a taxa Selic de 13,75% para 7,5% em até um ano, mantendo-a depois entre 3,5% e 5,5%. O economista estima uma economia equivalente a 4% do PIB ao ano com essa medida, reduzindo o déficit de 9% para 6% do PIB. No entanto, analistas alertam que a estratégia pode pressionar a inflação — um cenário inclusive reconhecido pelo próprio Lara Resende ao citar estudos do economista John Cochrane.
Conselho misto e a independência do BC
O ponto mais polêmico é a criação de um Conselho Fiscal e Monetário, que passaria a definir as metas do Banco Central. Para Lucinda Pinto, isso retiraria da instituição a autonomia necessária para tomar decisões duras e manter a estabilidade da moeda. Thais Herédia citou o caso da Turquia como alerta: com intervenção política na política monetária, a inflação chegou a 85% ao ano e os juros ultrapassaram os 50%.
Usar reservas internacionais?
Lara Resende também sugere usar as reservas internacionais — cerca de US$ 360 bilhões — para conter a alta do dólar em momentos de fuga de capitais. A avaliação das analistas é crítica: “Toda vez que o BC tenta usar reservas para segurar saída de investidor, é aí que o mercado vai embora”, alertou Lucinda. Além disso, como lembrou Herédia, as reservas são, na essência, dívida pública — ou seja, seria usar dívida para combater a própria desconfiança sobre a dívida.
Foco na receita, e não na despesa
Sérgio Gabrielli, coordenador da campanha de Lula, elogiou as propostas e acrescentou medidas como combater sonegação e ampliar fiscalização. Porém, segundo Herédia, o problema estrutural persiste: as propostas mexem com a receita, mas não enfrentam o crescimento das despesas obrigatórias. O economista Samuel Pessôa, da FGV, lembra que essas despesas crescem duas a três vezes mais rápido que o PIB — um descompasso que, sem ajuste, dificilmente se resolve apenas com mais arrecadação.
O que o mercado espera
A avaliação predominante no mercado é que a implementação integral dessas medidas é pouco provável. Mesmo assim, há apreensão: não tanto pelo que será adotado, mas pela percepção de lentidão na definição de um rumo fiscal claro. Como concluiu Lucinda Pinto, o maior receio é que, sem ajuste estrutural, o ajuste acabe sendo feito pela via da inflação.












